origens, car acter ísticas e legados dos protestos que ocorreram em meados do mês de junho de 2013 no Brasil. A pesquisa qualitativa sistematizou 55 publicaçõ es acadêmicas sobre as Jornadas de Junho. Os resultados mostram que, em geral, as Jornadas são associadas aos protestos que ocorreram na cidade de São Paulo contra o aumento das passagens de ô nibus. As Jornadas teriam expressado a insatisfação popular com o sistema político e sua ineficácia na concretização das demandas sociais. Além de apresentar tais interpretações, o texto problematiza alguma delas, apontando par a a diversidade de atores, pautas e repertórios dos protestos, evitando certas generalizaçõ es presentes nos textos pesquisados. A pesquisa contr ibui para o conhecimento sobre as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, partindo da concepção de que se tr ata de interpretações e por isso são passíveis de problematizações.
Palavras-chave: jornada de junho; junho de 2013; protestos; manifestações; onda conservadora; brasil.
Introdução m meados de Junho de 2013 milhares de brasileiros foram às ruas com pautas diversas que reivindicavam desde a concretização dos direitos sociais até mudanças no sistema político (Alonso, 2017 Vommaro, 2015). No início eram cerca de duas mil pessoas nas ruas; em duas semanas havia mais de um milhão (Folha de S. Paulo, 2015).
Como resposta ao protesto mais famoso das Jornadas (o que oc orreu em 2013 na cidade de São Paulo), o prefeito de São Paulo à época, Fernando Haddad, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), revogou o aumento das passagens. Mas os protest os não se encerraram. Em junho do mesmo ano a expresidenta, Dilma Rousseff (também filiada ao PT), pronunciou-se na televisão prometendo um pacto que visava à melhoria dos serviços públicos e incluía um Plano Nacional de Mobilidade Urbana, a destinação de cem por cento dos recursos do petróleo para a educação e a importação imediata de milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Comprometeu-se também a realizar uma reforma política ampla e profunda que ampliaria a participação popular. Mas nem assim os protest os cessaram. Pelo c ontrário: eles começaram a ter como pauta justamente o impeachment da ex-presidenta (Almeida, O presente texto tem como objetivo apresentar argumentos que explicam as Jornadas. A pergunta que guia a pesquisa é: quais são as interpretações sobre as origens, características e legados de Junho de 2013 de acordo com textos acadêmicos publicados sobre o assunto? Tem-se como hipótese que os escritos sobre Junho divergem a respeito do ciclo de protestos, mas que é possível organizá-los com vistas à percepção das diferentes interpretações a respeito do fenômeno. Além de apresentar tai s interpretações, o texto problematiza algumas delas, ap ontando para a diversidade dos atores, das pautas e dos repertórios das manifestações, evitando com i sso certas generalizações que aparecem nos textos.
É importante ressaltar que não se trata apenas de uma nova descrição sobre as origens, características ou legados das Jornada de Junho, tampouco de uma síntese que revele de fato o que foi Junho de 2013. Mais que isso, o texto parte do pressuposto de que Junho é um terreno de disputa que resiste a simplificações. O trabalho também não tem a intenção de abordar todas as interpretações sobre as Jornadas. Limitamos-nos aqui a algumas dessas interpretações divulgadas em periódicos científicos disponibilizados online.
A pesquisa apresenta uma nova abordagem ao organizar e problematizar a literatura acadêmica existente sobre as Jornadas de Junho. Pretende-se desta maneira fornecer ao leitor uma compreensão mais ampla sobre Junho, apontando para as disputas e complexidades do fenômeno.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa que utiliza a técnica da sistematização da literatura para organizar as interpretações sobre Junho de 2013. A revisão sistemática da literatura parte de uma seleção criteriosa de trabalhos com vi stas a reunir um conhecimento sobre determinado assunto. As revisões sistemáticas são úteis para integrar as informações de um conjunto de estudos realizados separadamente e identificar temas em comum, orientando investigações futuras (Sampaio;Mancini, 2007, p .84).
Primeiramente em março de 2019 foram levantados artigos científicos no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) 1 Percebeu-se que os resultados não abrangiam artigos mais recentes, em especial os de 2019. Por isso optou-se pela localização de artigos sobre Junho de 2013 no repositório de periódicos Scielo, emb ora o portal de periódicos da Capes reúna artigos publicados no Scielo.
(acesso restrito) que c ontinham o descritor "Junho" em seu assunt o. Foram encontrad os 44 resultados, dentre os quais três artigos não tratavam das Jornadas e outros quatro eram repetidos, logo, 37 artigos foram escolhidos para análise. A busca em portais que reúnem periódicos tem suas limitações. Por exemplo, o fato de não reunirem trabalhos que ainda estão em preparação ou livros a respeito do tema. Para contornar tais limitações, foram incluídos na análise três livros que continham capítulos sobre o tema e mais um escrito por um único aut or.
No Scielo foram encontrados vinte artigos, dentre os quais nove já haviam sido extraídos da plataforma da Capes, por isso foram excluídos, e mais dois não tratavam do assunto, totalizando nove artigos incluídos na presente análise. 3 Por fim, buscou-se anai s de eventos que continham trabalhos que explorassem a questão. Foram selecionad os d ois trabalhos nos anais da IV Conferência Internacional: "Greves e Conflitos Sociais", fruto de uma conferência realizada em São Paulo em julho de 2018, e outros três extraídos dos anais do Encontro da Associação Naci onal de Pós-Tais livros foram esc olhidos por terem sido bastante citados nos artigos. 1 A Capes é uma fundação vincul ada ao Ministério da Educação do Brasil (MEC) que atua na expansão e consolidação da pósgraduação stricto sensu (mestrado e doutorado). O Portal de Periódicos da Capes é a maior biblioteca virtual do Brasil: reúne 48 mil periódicos em texto completo e é acessado por mais de 400 instituições no País (fonte: https://www.capes.gov.br) 2 O Scielo é uma importante ferramenta de busca por material científico no Brasil. Segundo informações obtidas na página virtual da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, 2015), o Scielo "indexa e publica em acesso aberto na internet uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros com o objetivo de aumentar sua visibilidade, acessibilidade, qualidade, uso e impacto." Ao todo foram localizados 46 artigos científicos, quatro livros e mais cinco trabalhos de eventos, totalizando 55 materiais acadêmicos sobre as Jornadas de Junho. Todo esse material foi lido e sistematizado com o auxílio do programa de computador NVivo (programa de computador para análise de dad os qualitativos).
O conteúdo dos textos foi analisado a fim de se extrair interpretações sobre as origens, características e legados das Jornadas de Junho. A análise de conteúdo é uma técnica bastante utilizada nas pesquisas qualitativas com o objetivo de verificar a frequência com que ocorrem determinadas construções em um texto, o que permite sistematizar as informações reunidas (Bardin, 2006). Vários dos textos reunidos não versavam sobre os pontos de interesse da pesqui sa e por isso não foram incluídos nas análises.
A título de exemplo e ilustração, serão retomados trechos de textos que versam sobre aspectos relacionados às Jornadas, c omo os protest os fora do Brasil, mani festações posteriores a 2013 ou as relações entre sociedade civil e Estado.
As passeatas e protestos que se espalharam no Brasil em 2013 são chamad os de Manifestações de 2013, Jornadas de Junho, Junho de 2013 ou Revoltas de 2013. A própria nomeação do fenômeno varia entre os autores. Alguns o chamam Jornadas de Junho ou Jornadas de Junho de 2013 (Bringel;Players, 2015;Fonseca, 2018;Mendonça, 20017), indicando desse modo que se trata de um clico de protestos, não apenas uma grande manifestação. Outros falam em Manifestações de Junho de 2013 (Miranda, 2017), ressaltando com isso os protestos de rua. Saibam os autores ou não que a nomenclatura traz consigo certa ênfase ao ciclo ou ao protesto, certo é que há implicações.
Optamos neste texto por chamar o fenômeno de Jornadas de Junho. Isso implica filiá-lo a um ciclo de protestos maior. 4 4 A noção de ciclo de protestos tem como base os escritos de Tarrow (2009, p.25) segundo os quais os ciclos de confrontos acontecem "uma vez que os recursos para uma ação coletiva se tornam disponíveis para as pessoas comuns e para as pessoas que diziam representá-las [...], produzindo os períodos de turbulência e reorganização".
Além disso a nomenclatura permite estabelecer conexões entre protestos como a "Revolta do Buzú" (Salvador, 2003) e a "Revolta da Catraca" (Florianópolis, 2004(Florianópolis, -2005)), que já expressavam antes de 2013 a insatisfação com o sistema político e a necessidade de concretização do direito de ir e vir por meio da redução das tarifas de transportes coletivos (Paccelli, 2016) Ainda no tocante ao tipo de organização mais presente nas Jornadas, é preciso diferenciar discursos de práticas. O fato de organizações como o MPL e outros c oletivos se definirem como horizontais não permite a adoção desses critérios para todas as organizações presentes nas Jornadas. Tampouco é possível afirmar que uma organização seja de fato horizontal a partir de sua própria definição. Mesmo a autoproclamada autonomia dessas organizações pode ser questionada: primeiramente p orque na própria manifestação já exige algo do Estado; em segundo lugar porque muitos integrantes de partidos que estavam nas manifestações foram eleitos para cargos públicos. A relação dos manifestantes com partidos políticos foi verificada por Souza (2017, p.14), que assim explica: "o que o ciclo de 2013 parece demonstrar pelo menos em seus padrões relacionais é uma ligação complexa entre os partidos políticos da esquerda e o MPL-SP. [...]".
Também há de interpretação a respeito das pautas dos protestos. Para aqueles que associam Junho à reivindicação iniciada por MPL de que a tarifa de ônibus não sofresse aumento, os protestos tinham relação com direitos sociais, c omo o de ir e vir (Augusto; Rosa; Resende, 2016.
Desmistificando certa associação de Junho com uma única pauta, Tatagiba e Galvão (2019) identificaram entre as pautas sobretudo queixas dirigidas ao governo e ao sistema político, seguidos por temas como salário, trabalho e c ondições de vida nas cidades. Nesse sentido, nota-se que as condições de vida na cidade não seriam a pauta principal. Outro estudo comprova o caráter amplo das mani festações por meio de análises dos cartazes dos protestos que traziam desde frases como "não são apenas os vinte centavos" (em referência ao aumento da tari fa do transporte coletivo em São Paulo) até pautas relacionadas aos direitos dos animais (M oraes, 2015). Até mesmo pautas conservadoras que ganharam fôlego depois de 2013 já estavam presentes nas Jornadas (Alonso, 2017). Log o, a interpretação dos protest os como bloc os homogêneos elimina sua diversidade.
Outra disputa diz respeito à novidade das Jornadas. O termo "novíssimos movimentos sociais" por vezes é utilizado para nomear as Jornadas (Augusto; Rosa; Resende, 2016; Gohn, 2017). Conforme essa explicação, os novíssimos moviment os sociais seriam plurai s, autônomos, horizontais e apartidários (Augusto; Rosa;
Resende, 2016), características de organizações distantes das estruturas institucionalizadas (Gohn, 2017). O símbolo d os novíssimos seria o Movimento Passe Livre, a organização mais associada às Jornadas, caracterizada pelos "princípios do apartidarismo, horizontalidade, autonomia e constituição de frente de luta para pressionar por um objetivo específico" (Augusto; Rosa; Resende, 2016, p .26). Até o fato de que as Jornadas teriam expressado e incentivado o discurso e a prática antipartidária e antissistêmica foi considerado uma novidade. Por exemplo, conforme Noqueira (2013), a natureza dos protestos e das organizações associadas ao MPL era não partidária. Por isso, na visão do autor, o movimento foi virtuoso quando conseguiu evitar sua instrumentalização p olítica.
Tais interpretações, temporalmente próximas dos protestos, apontam para uma nova ordem política inaugurada pelas Jornadas: uma organização do poder mais aberta à participação da população e menos mediada por partidos políticos.
No entanto, a novidade é passível de problematizações. As passeatas de 2013 não foram bem uma novidade: os brasileiros já estavam expressand o insatisfação com a política e com os serviços públicos em protestos como a "Revolta do Buzú" (Salvador, 2003) e a "Revolta da Catraca" (Florianópolis, 2004(Florianópolis, -2005)). Inclusive marchas contra a corrupção aconteceram em 2011 em diversas capitais do País. As primeiras, em Brasília, levaram cerca de 25 mil pessoas para as ruas. Organizados por meio das mídias sociais, esses atos de protesto atacavam o voto secreto no Congresso, os recentes escândalos de corrupção no g overno da presidenta Dilma Rousseff, a não aplicação da Lei da Ficha Limpa e até o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. Nessas manifestações, evitou-se o uso de referências partidárias (Estadão, 2011).
Junho de 2013 também é frequentemente comparado com ciclos de protestos que aconteceram em outras partes do mundo (Cocco, 2014). Em mead os de 2010 grandes protest os ocorreram no âmbito internacional, como as Jornadas da Praça Tahir no Egito, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos e os Indignados na Espanha (Carneiro, 2012). Pleyers e Glasius (2013) explicam que esses e outros ativismos pós-2010 têm em comum a infraestrutura de redes e reuniões que facilitam a rápida difusão de slogans, repertórios de ação e significados, processos de globalização, que influenciam de forma semelhante a geração de ativistas, e demandas e identidade centradas em três conceitos interconectados: democracia, justiça social e dignidade.
É importante ressaltar que, embora sejam apontadas similaridades entre os ciclos de Mobilizando um argumento mai s ec onomicista e, no entanto, ainda próximo da comparação com o cenário internacional , estudos c o de Coutrot (2014) explicam que o Brasil, assim como outras partes do mundo, passava por uma crise econômica que culminou em grande insatisfação e revolta da população. A crise econômica brasileira foi uma decorrência de crises mundiais agravada por anos de adoção de medidas neoliberais (não revertidas pelo Partido dos Trabalhadores).
Outro conjunto de argumentos para explicar as origens de 2013 remete aos limites da atuação do PT na presidência d o país, em especial durante a gestão de Dilma Rousseff (de 2011 a agosto de 2016). O PT não teria conseguindo promover reformas importantes e manteve a democracia fechada aos ansei os da população (Silva, 2015). Nesse sentido, como explica Fonseca (2018, p.5):
[...] pode-se afirmar que as manifestações de junho/julho, mesmo que polifônicas, aparentemente apontam para o esgotamento do pacto incremental e conservador articulado pelo lulismo: por não enfrentar os grandes poderes constituídos, por agir apenas nas franjas do sistema de poder e p or não "radicalizar a democracia".
Nesse sentido, os protestos de 2013 teriam acontecido pela incapacidade do governo petista, que mesmo após promover a ascensão de milhões de brasileiros à classe média via consumo, não conseguiu realizar reformas estruturais.
Um outro argumento que atribui ao PT certa responsabilidade pelas Jornadas de Junho defende que o partido deixou de fazer a mobilização das bases, cooptando militantes de movimentos sociais para seus quadros. Consequentemente, os movimentos sociais do campo progressista teriam se desmobilizado, permitindo assim o avanço de organizações conservadoras.
Analogamente, conforme outra explicação, a origem das Jornadas estaria na incapacidade do sistema político brasileiro de responder às novas demandas dos cidadãos (Santos, 2014;Silva, 2015). Haveria uma cri se da representação e do sistema político que elegeria políticos que não atenderiam as demandas dos cidadãos. Daí a recorrente crítica aos partidos e ao sistema político nos protestos.
Conforme outra explicação, os protest os cresceram, dentre outros motivos, devido à repressão policial violenta em alguns deles. O estopim das reações contrárias à violência policial teria acontecido após os protestos em São Paulo no dia 13 de Junho de 2013, quando diversos manifestantes, especialmente jornalistas, foram feridos ou detidos pela Polícia de São Paulo (Santos, 2014). Foi nesse protesto que o repórter fotográfico Sérgio Silva da agência Futura Press perdeu a visão d o olho esquerdo após ser atingido por uma bala de borracha disparada por um policial. A condenação social dos atos de violência policial teria levado mais pessoas a participarem dos protest os posteriores.
O aumento de acesso e uso da internet também é considerado um dos fatores que explicariam as Jornadas (Paccelli, 2016;Santos, 2014). Conforme esse argumento as redes sociais digitais, como o Facebook e o Twitter, p ossibilitaram a convocação e organização dos manifestantes, sendo, portanto, imprescindíveis para a mobilização de tantos manifestantes. No entanto, trabalhos como o de Machado e Miskolci (2019) ponderam que não é possível atribuir às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) a eclosão dos conflitos: as TICs visibilizam, amplificam e radicalizam tensões, mas não desencadeiam conflitos por si só.
Como procuramos indicar, nos trabalhos citados é comum a associação de Junho com fenômenos novos ou recentes, tais como a popularização da internet ou a administração do PT no Governo Federal. Não encontramos trabalhos que tentem explicar Junho por meio da cultura política autoritária na sociedade brasileira. Isso faz concluir que os argumentos tendem a ser externos aos cidadãos, mas também poderiam ser internos.
Depois de 2013 o discurso anticorrupção predominantemente orientado contra o PT começou a ganhar destaque entre as pautas dos protest os (Almeida, Movimento Brasil Livre (MBL) (Gohn, 2018). Foi em manifestações c omo essas que proliferou o apoi o à intervenção militar.
Conforme alguns interpretes, a preponderância da direita já no ciclo de protestos significou o fim de um ciclo político brasileiro iniciado com a redemocratização nos anos setenta (Mendonça, 2017, s/p.). Nesse sentido as Jornadas teriam aberto espaço para o avanço dos projetos conservadores que hoje são predominantes no país (Lima, 2014;Nunes, 2014;Silva, 2015). As práticas conservadoras teriam começado a se manifestar em 2015 nas passeatas que pediam o impeachment da expresidente Dilma Rousseff, desembocando por volta de 2018 em apoio à ditadura e em votos para um candidato de ultradireita (Jair Bolsonaro) nas eleições presidenciais. Nesse processo, a esquerda arrefeceu e virou alvo de críticas alimentadas pelo discurso anti-PT.
Uma das explicações para a guinada do ciclo de protestos à direita é cooptação das manifestações pelas forças conservadoras (Nunes, 2014). De ac ordo c om essa interpretação, as manifestações iniciais eram autônomas, horizontais e à esquerda. No entanto, a direita (também com seus partidos) usou as manifestações para disseminar e impulsionar pautas conservadoras. Lima (2014, s/p.) explica que "o que começou como veemente condenação transformou-se da noite para o dia não só em tentativa de cooptação, mas também em um esforço para instigar e pautar as manifestações, introduzindo bandeiras aparentemente alheias à motivação original dos manifestantes". Uma das instituições responsávei s por essa inversão de pauta teria sido a "velha mídia" (TV, diário e jornal), que no início condenava os protestos e depois passou a apoiálos, inclusive incentivand o a participação de seu público. Nesse sentido, de modo geral, as jornadas de Junho de 2013 teriam sido invadidas por conservadores, o que gerou um enfraquecimento das pautas iniciais do MPL e contribuiu para a deposição do governo Dilma.
No entanto, embora essa interpretação descreva parcialmente a emergência das tendências reacionárias que se anunciariam nos protestos, nem por isso seria possível compreender Junho como um bloco homogêneo à esquerda seguido por outro bloco de protestos também homogêneo, desta vez à direita. Pesquisadores mostram que há c ontinuidades entre Junho de 2013 e os protestos conservadores posteriores. Em que pesem as diferenças entre os protestos, em Junho de 2013 já estavam presentes pautas e membros de partidos mais à direita: por exemplo, as que ressaltavam o fim da corrupção com ênfase moral. Para Angela Alonso, em Isso pode parecer um c ontrassenso. M as segundo argumentação aqui apresentada, Junho de 2013 foi tão diverso que não se pode atribuir àquelas manifestações um caráter democratizante. Isso não significa que os atores, pautas e repertórios mobilizados em Junho de 2013 sejam iguais aos das manifestações de apoio ao presidente Bolsonaro. Mas sim apenas que em Junho houve uma diversidade de atores que deve ser considerada, percepção que ajudaria a relativizar ideia de que o Brasil "virou": os conservadores já estavam nas ruas nas Jornadas de Junho.
Inversamente no entanto, a associação das Jornadas com o fim do ciclo político democratizante no Brasil também falha em descrever totalmente a complexidade do processo. Ela desconsidera outros fatores que têm relação com a eleição de Jair Bolsonaro, como o interesse dos empresários pela pauta ultraliberal do presidente eleito, ou o impacto das novas tecnologias da comunicação nas eleições. Em última instância, uma interpretação que relacionasse diretamente a presença da direita em Junho à configuração política atual poderia culpabilizar os manifestantes e as organizações políticas presentes em Junho pela ascensão de um projeto conservador, distinto das ideias defendidas por grande parte d os manifestantes que saíram às ruas em junho. E se os interesses empresariais e a própria ascensão vertiginosa da figura de Bolsonaro apontam para fatores posteriores, estudos como o de Moisés (2008) revelam traços autoritários na cultura política brasileira anos antes das Jornadas.
Para além dos impactos no sistema político institucional ou eleitoral, algumas interpretações também apontam para um outro tipo de legado de Junho de 2013: a reconfiguração d o ativismo social (Bringel;Pleyers, 2015;Perez, 2019;Perruzo, 2014). Parte desse legado seriam os coletivos, organizações que se propõem discursivamente como estruturas novas, fluidas, mais horizontais e divergentes das organizações políticas tradicionais, repudiadas em virtude de seu excesso de normas e hierarquias (Perez, 2019).
Assim como o significado de Junho de 2013 varia nas interpretações posteriores, durante o processo ele também foi múltiplo de acordo com o espectro político pelo qual era interpretado. No calor do momento, a televisão mostrava a ocupação de centros de poder (Congresso Naci onal e Assembleias Legislativas), enquanto na internet circulavam expressões como "O Gigante acordou", como se de fato os brasileiros tivessem despertado de um sono profundo de alienação política e social. A ideia de que o brasileiro havia "despertado" para transmitia uma alegria em relação às manifestações. Para intérpretes como Nogueira (2013), havia uma esperança de a política do Brasil seria aprimorada. Se o brasileiro em geral, e os jovens em particular, eram considerados passivos e pouco interessados em política, as manifestações de Junho de 2013 poderiam estar mostrando que esse cenário havia mudado.
É certo que nem todas as interpretações eram carregadas de esperança: em meio à euforia, alguns militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) -partido mais à esquerda no espectro político -desconfiavam que as manifestações poderiam ser o germe do fim da democracia (cf. Miranda, 2017). Como a pauta inicial do movimento tinha c omo alvo a gestão municipal em São Paulo de Fernando Haddad, filiado ao PT, os petistas se preoc upavam c om o impacto da mobilização contra um governo mais à esquerda. André Singer, por exemplo, porta-voz da presidência da República no primeiro governo Lula, minimiza os efeitos de Junho ao escrever que: "o Junho brasileiro também produziu um tremor de terra, p orém não chegaria a qualificá-lo de terremoto, uma vez que o travejamento fundamental da ordem não foi questionado". (Singer, 2013, p .24). Para o autor, as Jornadas não questionavam as relações de classe e propriedade, essas sim centrais para grandes transformações sociai s.
As interpretações a respeito do ciclo de protestos disputam significados e revelam preferências políticas distintas. Segundo um esquema bem geral, de um lado existem interpretações mais entusiastas a respeito de Junho de 2013 e seu p otencial de expressão da democracia; de outro, critica-se as Jornadas por hipoteticamente terem contribuído para a perda de legitimidade dos governos petistas. Em meio a essa disputa, acadêmicos procuram mostrar dad os que apontam para a diversidade das Jornadas e a impossibilidade de leituras simplificadas a seu respeito.
Mas o espectro político não é a única forma pela qual seria possível organizar as diversas interpretações sobre Junho. Uma vez que as Jornadas consistiram em um processo progressivo e contraditório que deu vazão a questões de ordens diversas, suas interpretações também podem organizadas de acordo com o momento em que foram produzidas. Em um momento imediatamente posterior, os escritos constatavam com entusiasmo que os brasileiros estariam se mobilizando para finalmente exigirem seus direitos, com destaque para o direito à cidade e o direito a serviços públicos de qualidade. Passad os alguns anos, as análises tornaram-se mais cuidadosas na medida em que traçavam distinções entre os ciclos de protestos e indicavam diversidade até mesmo dentro de um único ciclo -essa também foi a intenção do presente artigo.
Este artigo buscou organizar e problematizar os escritos sobre o maior ciclo de protestos ocorrido no Brasil pós-redemocratização, as Jornadas de Junho. Seu esforço principal foi distinguir os argument os segundo as características, origens e consequências das Jornadas.
| 2013 tenha reunido atores sociais novos cujas | |
| características são a autonomia e a horizontalidade. | |
| tarifa do transporte coletivo não sofresse aumento | |
| (Augusto; Rosa; Resende, 2016). | |
| Por outro lado, outros textos alertam para a | |
| impossibilidade de se associar as Jornadas a um único | |
| protesto (Bringel; Pleyers, 2015; Paccelli, 2016; Tavares; | |
| Roriz; Oliveira, 2016). Tais estudos indicam que os | |
| protestos aconteceram em diversas partes do país | |
| (Paccelli, 2016; Tavares; Roriz; Oliveira, 2016), e | |
| ademais que "as lógicas de mobilização, a composição | |
| social dos manifestantes e a correlação de forças variou | |
| consideravelmente analisadas" (Bringel; Pleyers, 2015, p.7). A identificação dependendo das cidades | 9 |
| das Jornadas com os eventos que ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro revelaria uma visão sudestecêntrica (Tavares; Roriz; Oliveira, 2016), uma vez que ambas as cidades estão localizadas na região Sudeste do Brasil, a mais rica e p opulosa. Da mesma forma que existe uma vinculação de Junho com os protestos liderados pelo MPL, existe a associação de Junho com um tipo de organização política que se apresenta como novidade, na medida em que se prop õe como mais horizontal e distante da política tradicional: os coletivos (Augusto; Rosa; | Volume XX Issue III Version I |
| Resende, 2016; Gondin, 2016). Para essa interpretação, as Jornadas seriam caracterizadas pela ruptura com o | ( F ) |
| sistema da política tradicional, pois comportariam e | |
| disseminariam organizações políticas mais horizontais e | |
| sem liderança. | |
| Essa identificação tem relação com o fato de | |
| que o próprio MPL (organização c onsiderada um | |
| símbolo de Junho de 2013) se apresenta como uma | |
| organização sem liderança, distante da burocracia e | |
| dos protocolos das organizações mais tradicionais | |
| como os partidos (M ovimento Passe Livre, 2013). De | |
| fato estavam presentes nas Jornadas organizações | |
| chamadas de coletivos (Perez, 2019; Tatagiba; Galvão, | |
| 2019; Vommaro, 2015). Mas ainda assim não é possível | |
| afirmar que apenas os coletivos estavam presentes nas | |
| Jornadas. | |
| Trata-se de um clico de protestos com | |
| variações importantes entre eles e dentro deles. Entre | |
| os atores havia diversos setores da sociedade, | |
| organizados ou não (Paccelli, 2016, p .35). Conforme | |
| estudo de Tatagiba e Galvão (2019), os grupos sociais | |
| tradicionalmente mais mobilizados, a exemplo | |
| dos trabalhadores, foram os que mais se fizeram | |
| presentes nas ruas entre 2011 e 2016. Esses dad os | |
| indicam a presença de organizações tradicionais, o que | |
| vai contra uma certa interpretação de que Junho de |
| mobilização. Autonomistas e socialistas se situaram à |
| esquerda do governo d o PT, c om agenda reformista, |
| mais e melhores p olíticas públicas e expansão de |
| direitos. O setor patriota ia do liberalismo (a favor do |
| Estado enxut o e e ficiente "padrão Fifa") ao |
| conservadorismo (pró-ditadura militar), com foco no |
| rechaço a instituições p olíticas, políticos e partidos, e |
| na identificação do PT com a corrupção, via |
| Mensalão ("Corruptos"). |
| De fato, pautas e organizações conservadoras |
| já estavam presentes em Junho, embora tenham ganho |
| ênfase em protestos posteriores. A pesquisa sobre a |
| nova direita conduzida pelo |
| Junho (2017, |
| p.52): |
| [...] não era um "todos contra tudo o que está aí". |
| Havia preponderâncias de pauta em cada setor da |
Capturas e resistências nas democracias liberais: uma mirada sobre a participação dos jovens nos novíssimos movimentos. Revista Estudos de Sociologia 2016. (40) p. .
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