The Grammar Corpus in the Horizon of Retrospection of S. José De Anchieta, SJ (1534-1597) O quadro de gramáticas na abrangência referencial de S. José de Anchieta, SJ (1534-1597)
Abstract-The present study consists of an analysis of the grammar corpus within the horizon of retrospection of S. José de Anchieta, SJ (1534-1597), based on the theoretical and methodological basis of Historiography of Linguistics, within the scope of Grammaticography, the History of Grammar.
Bearing in mind that Anchieta lived in the heyday of Iberian Renaissance humanism, a time of globalization of Western linguistic education, by European navigations, I analyzed the climate of opinion and the possible influences that the Christian humanist received, to write the Art of grammar of the most important language. used on the coast of Brazil (1595), on the Tupinambás language. My historiographical description will take place chronologically, dividing Anchieta's biography into phases, according to the biography written by Hélio Viotti (1980), and investigating the possible sources and influences of Anchieta's grammatical study in his performance as a teacher, grammarian and school manager in 16th century Brazil. Throughout the article, I also describe the context of production of the literary works that integrate the anchietan corpus, in an interpretation of the Monumenta Anchietana. The purpose of the study is to support future researchs on the intertextuality of the anchietan grammar with other 16th century grammars, constituting a corpus of analysis. Keywords: history of linguistics, linguistic historiography, grammaticography, sixteenth century, renaissance humanism, history of brazil.
Resumo-Consiste o presente estudo em análise do quadro de gramáticas na abrangência referencial de S. José de Anchieta, SJ (1534-1597), pela fundamentação teóricometodológica da Historiografia da Linguística, no âmbito da Gramaticografia, a História da Gramática. Tendo em vista que Anchieta viveu no apogeu do humanismo renascentista ibérico, uma época de globalização da educação linguística ocidental, pelas navegações europeias, analisamos o clima de opinião e as possíveis influências que o humanista cristão recebeu, para escrever a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (1595), sobre o idioma dos Tupinambás. Nossa descrição historiográfica se dará de forma cronológica, dividindo a biografia de Anchieta em fases, de acordo com a biografia escrita por Hélio Viotti (1980) Assim, a fundamentação teóricometodológica do presente estudo é embasada pelo modelo analítico da Historiografia da Linguística 1 A História da Linguística no Brasil, entre os séculos XVI e XIX, do início do processo de colonização, em 1500,até a tranferência da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, é um tema de pesquisa eurobrasileiro, cuja interpretação historiográfica, em uma concepção pós-colonial, pode levar em consideração o tópos da colonização linguística, a partir de pressupostos dos Estudos Culturais e da Linguística Missionária , em que a contextualização (KOERNER, 1996) é uma das fases de descrição e análise do pensamento linguístico. 2 1 No Brasil, a área de Historiografia da Linguística (HL) é um campo de investigação científica registrada na Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), representada pelo GT da Anpoll de Historigorafia da Linguística Brasileira, tendo sido o Centro de Documentação Historiográfica (CEDOCH/USP) introdutor da disciplina no Brasil. O presente artigo se vincula à área de História de Gramática, ou Gramaticografia, desenvolvido no grupo de pesquisa Filologia, Línguas Clássicas e línguas formadoras da cultura nacional (FILIC/CNPq/UFF).
. 2 O posicionamento teórico reflete que grande parte do pensamento linguístico no Brasil quinhentista é derivado do processo de Somente a partir de 1808 é que a produção linguística no Brasil pode ser considerada como integrante de uma tradição nacional, com a inauguração de uma tipografia por D. João VI, ainda vinculada à época a Portugal, porém, menos eurocêntrica.
O presente estudo está situado no âmbito da Gramaticografia 3 Dessa forma, nossa descrição historiográfica se dará de forma cronológica, em relação à biografia de Anchieta, e às principais fontes gramaticais de cada época, no contexto mais próximo à sua formação , isto é,da História da Gramática (CAVALIERE, 2012), tendo como objeto de análise a abrangência referencial da época de Anchieta, que foi o autor da Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (ANCHIETA, 1595). Dessa forma, conforme a prescrição do modelo teórico-metodológico de Swiggers (2019), o estudo se desenvolve na perspectiva hermenêutica, para a interpretação das possíveis fontes, modelos e influências da gramática anchietana, no sentido de estabelecer umcorpuscomparativo de gramáticas quinhentistas, em momento anterior à investigação do fenômeno da intertextualidade.Dessa forma, buscamos delimitar um cânon de gramáticas que poderiam servir ao trabalho comparativo, em etapa posterior.
Pelo fato de que Anchieta vivenciou um processo histórico complexo no século XVI, com grandes inovações e transformações na educação e nas políticas linguísticas, que é o período de apogeu do humanismo renascentista ibérico (KALTNER, 2019), descrevemos e analisamos o clima de opinião, com as possíveis influências, que o missionário jesuítica, possivelmente, recebeu para escrever sua gramática. Note-se que a descrição da História da Gramática de sua época, e análise da abrangência referencial, não significa que as principais fontes descritas no estudo foram utilizadas diretamente por Anchieta, nem mesmo são possíveis correlações diretas entre as gramáticas citadas sem uma análise intertextual detalhada. colonização, sendo o Estado do Brasil uma província do império ultramarino português, que, a partir de 1548, contaria com um governador-geral em sua admnistração (REGIMENTO, 1548). Os reinos europeus de então se configuravam como monarquias absolutistas e teocracias, dessa forma, o processo missionário era extensão da administração colonial, em um sistema burcocrático intrincado. 3 CAVALIERE, 2012, p. 218: "O percurso historiográfico da gramaticografia brasileira inicia-se com a publicação do Epítome de gramática portuguesa(1806), do carioca Antônio de Morais Silva (1755-1824). Antes, pouquíssima produção linguística se atesta em solo brasileiro -no sentido não propriamente de obras publicadas no Brasil, já que não as havia, senão de obras escritas no Brasil por autores brasileiros ou estrangeiros -, tendo em vista a situação de extremado atraso socioeconômico da colônia portuguesa até a chegada da corte de D. João VI em 1808. Podem-se citar apenasuns poucos textos linguísticos escritos em terra brasileira ao longo dos três primeiros séculos da colonização, dentre eles a Arte degramática da linguagem mais usada na costa do Brasil (1990 [1595]), de José de Anchieta (1534-1597), marco inicial da produção linguística brasileira do ponto de vista historiográfico". linguística. Assim, dividimos a biografia de Anchieta em fases, de acordo com o modelo biográfico de Hélio Viotti (1980), investigando as possíveis fontes de estudo gramatical de Anchieta, e sua posterior atuação no Brasil quinhentista, como missionário, professor, gramático e gestor escolar. O tema foi assunto de três estudiosos, sendo o debatedesenvolvido pelo classicista e humanista Américo Ramalho (1997,1998), pelo historiógrafo Otto Zwartjes (2002) e pelo linguista Rolf Kemmler (2013), o que será debatido mais adiante.
Ao longo do artigo, buscamos também comentar o contexto de produção literária das obras de Anchieta, os Monumenta Anchietana, relacionado suas principais obrasà cada fase de sua biografia, tendo em vista que as obras literárias teriam tido provável finalidade didático-catequética no contexto do Brasil quinhentista, conforme hipótese defendida em estudo anterior (KALTNER, 2019). O objetivo do artigo, portanto, é subsidiar estudos posteriores sobre a gramática anchietana, delimitando um possível corpus comparativo para a análise da intertextualidade de sua gramática com outras gramáticas vernaculares e latinas do século XVI.
Acreditamos que a tradição gramatical relacionada à abrangência referencial de Anchieta é aquela que sucedeu a gramática especulativa, de caráter aristotélico-tomista, no mundo ibérico, sendo suas fontes principais as gramáticas renascentistas, cunhadas pelos humanistas. Dessa forma, Anchieta desde o início de sua educação linguística até a publicação da Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, em 1595, teve como provável modelo e influência o padrão gramatical vernacular e latino do humanismo renascentista, em sua recepção no contexto cultural ibérico.
A Infância De Anchieta e a Sua Educação Nas Ilhas Canárias (1534-1548) Em sua primeira infância, até a adolescência, José de Anchieta viveu nas Ilhas Canárias, sob administração da coroa espanhola, sendo esse um período de intensa atividade missionária na região, tanto por franciscanos quanto por dominicanos, e outras ordens religiosas (VIOTTI, 1980). A população indígena guanche estava em processo de conversão ao cristianismo 4 Tenerife, compunha a classe da aristocracia local hispânica, sendo possuidora de laços com tradições culturais biscainhas e de cristãos-novos 5 Esse irmão de Anchieta, muito provavelmente, teve formação anterior à ida para Coimbra. Se Anchieta o acompanhou na viagem, é provável que tivessem , em sua ancestralidade. Nesse aspecto, a multiculturalidade era um traço de sua formação inicial, longe da Europa continental, mas integrada pelo processo missionário e pelas navegações ao continente, em suas inovações culturais humanísticas e renascentistas.
Pelos biógrafos de Anchieta, pouco sabemos dessa época, porém, alguns fatos levantados por Hélio Viotti (1980) . Se Anchieta teve o irmão como preceptor, tendo tido provável acesso às obras de Nebrija, ainda na fase inicial de sua adolescência, não é de estranhar a sua facilidade na aquisição de línguas adicionais, como o latim. Note-se bem que essa conjuntura é apenas uma hipótese, não havendo registro documental que a possa comprovar, senão a análise intertextual e comparativa de sua obra gramatical com as obras de Nebrija.
O que podemos intuir é que na abrangência referencial de Anchieta, na primeira fase de sua vida, há grande possibilidade de ter tido acesso à obra de Nebrija, direta ou indiretamente, ou talvez de outra obra de prestígio da tradição humanística e cristã renascentista da época, como os Rudimenta grammatices de Nicolo Perrotti. A mediação nos estudos iniciais de Anchieta,por seu irmão mais velho, Pedro Nuñez, é altamente provável devido ao modelo educacional de preceptoria à época, assim como também é provável que Anchieta tenha estudado no colégio dos dominicanos em Tenerife como cita Viotti (VIOTTI, 1980).
Viotti levanta a hipótese de Anchieta ter estudado no colégio dos dominicanos, o que é plausível, pois aos catorze anos seguiria para uma estadia em Coimbra, sendo oriundo de uma família que investia seus recursos em educação. Na abrangência referencial da época e no contexto das Ilhas Canárias, com o domínio espanhol sob a coroa da Casa de Habsburgo, a Casa da Áustria, a educação humanística hispânica era fomentada em conjunto com a prática missionária. Se o colégio dos dominicanos das Canáriasestivesse atualizado pelas inovações da época, não é de todo impossível que a obra de Nebrija fosse desconhecida dos estudantes que ambicionavam estudos universitários no continente europeu. Se Anchieta não teve contato diretamente com a obra de Nebrija, a gramática de castelhano e a de latim, estudando com os dominicanos, é possível que tenha tido contato indireto, através de seus familiares, como seu irmão, que se preparava para os cursos superiores de teologia em Coimbra. O fato de que Anchieta é descrito como um excelente aluno de latinidades, no Real Colégio das Artes, nos leva a intuir que a sua educação linguística na infância e no início da adolescência, até os catorze anos de idade, nas Ilhas Canárias, teve a influência de alguém mais adiantado em seus estudos humanísticos.
Como as Ilhas Canárias eram domínio da coroa de Castela, os Habsburgos sob o reinado de Carlos V, e estivesse dentro de um contexto missionário em sua ocupação hispânica, é provável que os avanços da Universidade de Salamanca, notadamente as obras de António Nebrija tenham chegado aos colégios missionários da região, que possuía missões dominicanas e franciscanas. Pela produção linguística de Anchieta, o clima de opinião de sua época, em que se desenvolvia a tradição humanística nos reinos ibéricos, há grande possibilidade de que tenha sido alfabetizado cedo, inclusive em língua latina, antes de chegar à Coimbra, pois o conhecimento de diversos gêneros literários está patente em sua obra poética lírica posterior.
Dessa etapa da vida de Anchieta, pouco se sabe e o que há são conjecturas, hipóteses. Porém, pelo sucesso no Real Colégio das Artes e pela produção literária posterior, é bem plausível cogitar que a educação linguística de Anchieta foi precoce, vinculada ao seu irmão mais velho Pero Nuñez que o acompanhou em Coimbra, como um tutor. A criação de dioceses nas Ilhas Canárias e o processo missionário com a população de etnia guanche da região foram observadas pelo jovem Anchieta, o que pode ter influído, posteriormente, em seu trabalho missionário na América portuguesa.
A ida de Anchieta para Coimbra, aos catorze anos de idade, marca a etapa posterior à pacata infância e adolescência nas Ilhas Canárias do século XVI. Anchieta chega à cidade lusitana para estudar no Real Colégio das Artes, em 1548, no ano de inauguração da instituição, após profunda reforma eduacional e cultural empreendida por D. João III (DIAS, 1969). É a época em que a educação humanística, sobretudo a escola francesa, passa a ter relevo em Portugal, com André de Gouveia e os mestres bordaleses.
Os relatos desse período da vida de Anchieta são menos escassos, conforme Viotti nos apresenta, sobre a ida de Anchieta para Coimbra, de que há registros e fontes documentais: "em Coimbra se distinguiu ele desde logo entre os melhores alunos de sua classe, possuindo grande facilidade para a poesia latina, razão pela qual lhe deram os colegas o apelido, alusivo igualmente à sua pátria, de canário de Coimbra". (VIOTTI, 1980, p. 29). Anchieta, além do curso de gramática e de Humanidades, também estudou Filosofia em Coimbra, prosseguindo seus estudos, após ingressar em 1551 na Companhia de Jesus: "como noviço, prosseguiu no Colégio das Artes seus estudos, já então de Filosofia" (VIOTTI, 1980, p. 29). A informação de Viotti deriva de Simão de Vasconcelos, e o ensino de filosofia à época se refere, sobretudo, às obras de Aristóteles que compõem o Ã?"rganon.
A tradição gramatical da época de Anchieta em Coimbra reflete as inovações tipográficas e a descrição do vernáculo, além de uma renovação dos estudos latinos, a que Anchieta passaria a ter acesso. O contexto político e social, porém, era de um profundo embate teórico, entre setores do Tribunal da Inquisiçãoe os mestres bordaleses. É provável que Anchieta tenha começado a estudar português em Coimbra, sendo asobras de João de Barros as mais difundidas nesse período, em sua abrangência referencial.
O irmão de Anchieta, Pedro Nuñez, foi à Universidade de Coimbra cursar Cânones, logo deve ter atuado como tutor do jovem Anchieta, até que se integrasse no Real Colégio das Artes. Consta, nos parcos registros biográficos, que Anchieta foi aluno do humanista Diogo de Teive, a partir de quem, provavelmente, desenvolveu seu profundo conhecimento de latim, com formação literária humanística. Em relação à gramaticografia latina, entre os mestres bordaleses era patente o uso da gramática latina de Despauterius, por influência de Erasmo de Roterdã (NAVARRO, 2000).
A datação do período educacional de Anchieta no Real Colégio das Artes não é precisa, oscilando geralmente entre 1548 e 1551, ou 1553.No ano de 1551, Anchieta ingressou na Companhia de Jesus, cumpre salientar que havia um vínculo de parentesco entre sua família e à de S. Inácio de Loyola, o que poderia ter motivado o ingresso na ordem religiosa. Consta que além do curso inicial de Humanidades, ou Letras, cujo escopo era o estudo de gramática latina e literatura clássica, no Real Colégio das Artes de Coimbra, além dos estudos de Filosofia, supracitados.
Anchieta passou o ano de 1552 adoentado, possivelmente afastado dos estudos no Real Colégio das Artes (VIOTTI, 1980). Em virtude de seu estado de saúde, em 1552, o jovem humanista provavelmente passou por uma temporada de reclusão, em que pode ter se aprofundado nos estudos teológicos iniciais, que marcariam também seus votos para o ingresso na vida missionária.Dessa forma, acreditamos quea prática religiosa passaria a ocupar sua rotina como estudante. Já no ano de 1553, Anchieta foi enviado ao Brasil, como missionário, integrando uma comitiva de missionários e administradores para a colônia na América portuguesa.
Ainda que Ramalho (1997, 1998) e Navarro (2000) citem diversas gramáticas latinas, gregas e até de Hebraico, na abrangência referencial de Anchieta, como as de Pastrana, Estevão Cavaleiro e Clenardo, acreditamos que o curto tempo e o cenário político não teriam sido propícios ao estudo gramatical com diversas obras, ainda que seja possível que Anchieta tenha tido acesso a essas obras direta ou indiretamente, por seus mestres e preceptores.Um exame mais detalhado da intertextualidade da gramática anchietana pode comprovar a leitura, ou pelo menos a recepção indireta de um corpus mais amplo de gramáticas, porém, em um exame preliminar biográfico, acreditamos que as obras de Nebrija, João de Barros e Despautério possam estar mais próximas à educação humanística de Anchieta.
Rolf Kemmler (2013) apresenta um quadro bem diverso das gramáticas de tradição latino-portuguesa da época, editadas em Portugal, o que nos permite uma visão geral do clima de opinião. Embora algumas das obras tenham sido editadas em Portugal após a estadia de Anchieta em Coimbra, a lista de Kemmler nos mostra como se desenvolveu a tipografia portuguesa, algumas das obras poderiam circular em edições estrangeiras ou mesmo manuscritas na época de A partir da chegada de Anchieta ao Brasil, na capital São Salvador em 1553, há um maior registro biográfico de sua atuação e obras, quando se inicia sua atividade missionária e a sua produção epistolográfica. Anchieta desembarca em São Salvador, a única cidade da América portuguesa, em uma comitiva de missionários jesuítas para o Brasil. O governo-geral já está instalado e o contexto de sua chegada está relacionado ao início do período de Duarte da Costa, segundo governador do Estado do Brasil.
A partida de Anchieta para São Vicente e a fundação de São Paulo são marcas em um novo projeto colonial no Brasil quinhentista, fatos que ocorrem em 1554, levando a uma expansão territorial ao sul a colônia que teria a capital em São Salvador: Que vinham fazer os jesuítas em Piratininga? Consagrar-se -diz Anchieta -à "conversão do Brasil". Para isso, contudo, teriam bastado ali, no momento, dois catequistas e um mestre-escola para os corumins repatriados. Pelo que toca à maioria dos recém-chegados, havia outra finalidade: "o estudo da Gramática". Uma nova missão e o primeiro "colégio" dos jesuítas no Novo Mundo, eis o que se instalou em Piratininga, a 25 de janeiro de 1554. A coincidência do dia da chegada e da primeira missa fez com se chamasse "Colégio de São Paulo" (VIOTTI, 1980, p. 58).
A política missionária já estava em curso, desde o início do século XVI, no início, não oficialmente, com missionários franciscanos, e após o Regimento de Tomé de Souza, em 1548, oficialmente com a presença dos jesuítas. Manuel da Nóbrega se tornaria o provincial e, brevemente, teria início o terceiro governo-geral de Mem de Sá. Essa fase da vida de Anchieta se caracteriza por ser o início de sua produção intelectual, seja pelas missivas, pela poética, e principalmente, pela redação de sua gramática, que se dá entre 1554 e 1556:
No trato com os corumins, que em São Vicente haviam aprendido alguma coisa do Português (e aos quais deve ter Anchieta ensinado desde o princípio, como certamente o fazia em agosto), no contato com os índios de Piratininga e, com o auxílio de alguns de seus discípulos, sobretudo Pero Correia e Manuel de Chaves, em seis meses apropria-se dos segredos do Abanheenga. Antes do ano de 1556, havia já redigido a sua Gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Levada por Nóbrega nesse ano para a Bahia, facilitou ela extraordinariamente a aprendizagem da língua geral pelos novos missionários recém-vindos da metrópole (VIOTTI, 1980, p. 61).
Em 1554, Anchieta havia iniciado as suas atividades de docência em São Paulo, com a fundação da primeira escola jesuítica na região. Mesmo com uma total falta de recursos, acreditamos que essas classes iniciais, de ler e escrever e de gramática, eram inspiradas nas aulas do Real Colégio das Artes de Coimbra, cujo objetivo para Anchieta foi a composição de sua gramática, que já estaria composta em 1556, segundo registros de cronistas e do próprio Anchieta (ANCHIETA, 1990). Não havia tipografia no Brasil quinhentista, e a circulação do conhecimento se dava por manuscritos. Note-se que em 1555 os franceses iniciavama ocupaçãoda Baía de Guanabara, na tentativa de colonização que ficou registrada para a posteridade como França Antártica, tendo perdurado até 1567.
A gramatização do idioma dos tupinambás se dava por influência de um superstrato latino-português 7 7 Cavaliere defende a hipótese de um superstrato português na gramatização do idioma dos Tupinambás (CAVALIERE, 2001), apenas acrescentamos o adjetivo latino, tendo em vista haver metatermos latinos na gramática anchietana. , tendo em vista que a metalinguagem anchietana revela o uso do vernáculo para a descrição da língua de contato, com o uso de metatermos da gramática latina renascentista. Acreditamos que nesse período de docência de Anchieta em São Paulo a principal obra em que trabalhou foi a sua arte gramatical, a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil (1595), juntamente com a tradução da doutrina cristã, o que é registrado entre os anos de 1554 e 1556. Acreditamos que a obra circulasse entre os missionários como manuscrito, até a sua publicação final na tipografia conimbricense, em 1595. Em São Vicente, no ano de 1560, Anchieta conclui a redação da Epistola quam plurimarum rerum naturalium quae S. Vicenti (nunc S. Pauli) provinciam incolunt, outra produção digna de menção.
Outra obra que foi escrita por Anchieta nessa época é o poema epicum De Gestis Mendi de Saa, que narra o primeiro triênio do governo-geral de Mem de Sá, com eventos históricos ocorridos entre 1557 e 1560. A obra, escrita em latim renascentista, teve a sua editio princeps publicada pela tipografia de Coimbra em 1563, logo deve ter sido escrita por Anchieta de 1557 até o ano de 1562, provavelmente após a conclusão da gramática e da tradução da doutrina cristã. Como se trata de composição em latim, inspirada em Virgílio, em um modelo próximo à obra em prosa escrita por Diogo de Teive, acreditamos que reflete os anos iniciais de docência de latim por Anchieta, que, durante cerca de oito anos, se dedicou a essas duas importantes obras: a gramática e o poema épico, ambos publicados em Coimbra. As intensas atividades missionárias e de docência de Anchieta ocorriam juntamente com a sua produção literária,sendo esse o período em que se dedica, sobretudo,às obras líricas, dramáticas e históricas. Ao final do período, Anchieta escreve um texto que sintetiza todas as ações missionárias jesuíticas de que teve notícia no Brasil quinhentista, sendo fonte imprescindível para se conhecer a época a Informação da Provincia do Brasil para nosso Padre, de 1585. Note-se que, a partir dessa época, há a chegada oficial de outras ordens religiosas no Brasil quinhentista, tendo em vista o contexto político ser a administração do Brasil quinhentista vinculada à União Ibérica.
No ano de 1587, em visitação de Anchieta à Niterói, na Igreja de São Lourenço dos Índios é encenado o Auto de São Lourenço (ANCHIETA, 1977), obra literária singular, trilíngue, em português, espanhol e no idioma dos Tupinambás, que narra as perseguições a cristãos na época do império romano e o martírio do santo. Esse momento ímpar na história da América portuguesa marca a época final de suas atividades missionárias, iniciando Anchieta seu retiro para uma vida mais ascética e meditativa, no Espírito Santo, realizando, contudo, visitações a outras missões.
Espírito Santo (1588)(1589)(1590)(1591)(1592)(1593)(1594)(1595)(1596)(1597) O período de retiro no Espírito Santo marca o afastamento de Anchieta da política missionária, em um momento em que ainda faz visitações, por todo o Brasil quinhentista, mas não recebe atribuições administrativas.
Anchieta observa o trabalho missionário, pelo qual tanto propugnou, em pleno funcionamento. Há a produção de cartas e de obra poética, talvez a revisão de sua gramática, que é publicada em 1595, na tipografia de Coimbra, uma publicação que coroa suas atividades missionárias ao longo de décadas no Brasil quinhentista.
Anchieta dedicou toda a sua vida às atividades missionárias na América portuguesa, tendo o reconhecimento dos colonos europeus e da população indígena, segundo os relatos quinhentistas. Ainda que o processo de colonização tenha registrado grandes violências, a mediação de Anchieta provavelmente reduziu os conflitos no processo. Consta que milhares de indígenas participaram de suas exéquias no Espírito Santo, e logo após seu falecimento foi aclamado como Apóstolo do Brasil (VIOTTI, 1980).Acreditamos que Anchieta, possivelmente, revisou suas obras nesse período de sua vida, que já se encontravam coligidas em manuscritos, alguns que chegaram à posteridade. Sua obra se preservou em manuscritos e edições, ao longo dos séculos, sendo um raro registro documental sobre o início do processo de colonização linguística na América portuguesa. O fomento à prática literária, como elemento central da educação humanística cristã da época do Renascimento, pode ser considerado o início das Humanidades no Brasil quinhentista. Sua literatura, registrada em quatro línguas, preservou o plurilinguismo daquela sociedade incipiente que derivou no Brasil que conhecemos. Anchieta, como homem de letras, marca uma época do pensamento linguístico na História da Linguística no Brasil, cuja obra de maior interesse para a História da Gramática no Brasil é a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, publicada em 1595.
| Se Pedro Nuñez estudou também com os | |||||
| dominicanos, no colégio de Tenerife, estando a | |||||
| educação | do | colégio | alinhada | com | os |
| desenvolvimentos da Universidade de Salamanca, à | |||||
| época, o corpus gramatical mais prováveldesse período | |||||
| histórico e tópos geográfico são as obras de Antonio de | |||||
| Nebrija, tanto a gramática vernacular de castelhano | |||||
| quanto a gramática latinaIntroductiones latinae 6 | |||||
| institutionem necessarijs (1555) (KEMMLER, 2013, | |
| p. 158). | |
| ? Pastrana, Juan de/ Rombo, Pedro: Grammatica pastrane [...]siue tractatus intitulatus: Thesaurus | IV. Anchieta No Brasil: O Período de Docência em São Paulo (1554-1562) |
| pauperum siue speculum puerorum editum a | |
| magistro Johanne de pastrana (1497). | |
| ? Rombo, Pedro: Materiarum editio ex baculo | |
| cecorum a petro rombo in artibus baccalario breuiter | |
| collecta (1497). | |
| ? Martins, António: Antonij martini primi quondam | |
| huius artis pastrane in alma vniuersitate Ulixbonensi | |
| preceptoris, materierum editio a baculo cecorum | |
| breuiter collecta (1497). | |
| ? Estevão Cavaleiro: Noua grammatices Marie matris | |
| dei virginis ars cuius author est magister Stephanus | |
| eques lusitanus (1516). | |
| ? Máximo de Sousa: Institutiones tum lucide, tum | |
| compendiose latinarum literarum (1535). | |
| ? Duarte Pinhel: Latinae Grammatices Compendia | |
| (1543). | |
| ? Nicolau Clenardo: Jnstitutiones Grammaticae Latinae | |
| (1538). |
| Anchieta | atuaria, | posteriormente, | como | ||||
| docente no novo colégio do Rio de Janeiro, que | |||||||
| buscava repetir o êxito das atividades missionárias da | |||||||
| Bahia, | com | nítida | influência | da | educação | ||
| conimbricense. VI. O Período Como Reitor No Rio De | (1565-1566) O período de fundação do Rio de Janeiro, em 1565, é bem conturbado, pois a cidade só se estabelece após a expulsão dos franceses, que ocupavam o território, e a dissolução da Confederação dos Tamoios, que perdurou de 1555 a 1567. Anchieta e Nóbrega ficaram como reféns dos Tamoios entre 1562 | ||||||
| Janeiro E Provincial No Estado Do | e 1563, durante a complicada negociação dos | ||||||
| Brasil (1570-1587) | indígenas com os portugueses. Nessa época, consta que Anchieta teria idealizado e escrito o poema | ||||||
| O período subsequente se inicia quando | elegíaco De Beata Virgine Dei Matre Maria, escrito | ||||||
| Anchieta atua como reitor no colégio jesuítico do Rio de | inicialmente nas areias das praias de Iperoig, e depois | ||||||
| Janeiro, entre 1570 e 1573, período em que muitas das | transcrito em manuscrito em São Salvador (ANCHIETA, | ||||||
| obras líricas e dramáticascomeçam a ser compostas. | 1988). | ||||||
| Acreditamos que com o desenvolvimento dos cursos | Anchieta foi para a Bahia, após esses eventos, | ||||||
| novos materiais didáticos foram incorporados. Esse também é o período em que a gramática de Manuel Álvares, De institutione grammatica libri tres, foi publicada, no ano de 1572. Se Anchieta teve contato direto com a gramática de Álvares, isso ocorre, provavelmente, no período de desenvolvimento do colégio jesuítico no Rio de Janeiro e no período posterior, quando Anchieta ocupa o cargo de provincial dos jesuítas, entre 1577 e 1587. Essa é uma época de intensas discussões sobre a educação linguística, por todo o globo, pelos jesuítas sobre o seu modelo educacional, cujos debates redundariam em 1599 na Ratio atque Institutio Studiorum. | e concluiu sua formação teológica 8 Na Bahia, de 1565 a 1566, "recopilou também com muita padre em 1566. Nessa época, é provável que tenha se dedicado ao estudo de obras teológicas, principalmente às que são relacionadas ao poema elegíaco. A partir da ordenação, em 1566, e dos estudos teológicos preparatórios no colégio dos jesuítas em São Salvador, Anchieta retorna com Nóbrega ao Rio de Janeiro, para a fundação do colégio jesuítico no morro do Castelo, que seria o novo núcleo colonial da cidade recém-fundada, em 1565. Sobre o período de formação teológica na Bahia escreve o jesuíta Hélio Viotti: facilidade Soto, , sendo ordenado | ||||||
Comentário à resposta do Prof. Leodegário Azevedo Filho. 41/42. Humanitas 1989-1990. p. .
José de Anchieta em Coimbra. Humanitas 1997. 49 p. .
A formação conimbricense de Anchieta. Humanitas 1998. 50 p. .
Argumento e predicado em Tupinambá. Revista Brasileira De Linguística Antropológica 2013. 3 (1) p. .
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Questões que persistem em historiografia linguística. Revista da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística, 1996. 2 p. .
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