nédita durante mais de quatro séculos, a obra do poeta portuense Tomé Tavares foi mais um exemplo da inúmera produção literária que desde a segunda metade do século XVI até aos fins do século XVIII permanece ainda inédita, esquecida, à espera de ser (re) descoberta. Na base deste evidente desinteresse pela conservação de todo um património literário estão às vezes intrincados problemas de crítica textual. A existência de várias cópias manuscritas, quase sempre lacunares, para além de implicar muitas variantes, pressupõe também determinar qual a lição verdadeiratarefa morosa, que obriga a percursos labirínticos indecifráveis. Mesmo as duas mais conhecidas antologias de textos de versos barrocos -Fénix Renascida e Postilhão de Apolo, que apresentam aliás muitos erros de atribuição de autoria, não comportam de modo algum toda a poesia desta época, sobretudo se pensarmos na quantidade indeterminada de manuscritos ainda por descobrir e editar.
Tendo plena consciência dessa árdua tarefa que é editar uma obra, procurámos com o estudo e edição dos textos de Tomé Tavares, contribuir para esbater o esquecimento que sobre eles (texto e autor) se abateu, dando a conhecer uma poesia irreverente, límpida e de singular rasgo de originalidade.
Apesar de reconhecidos estudiosos como Vítor Aguiar e Silva, Ana Hatherly, Maria Lucília Gonçalves Author : Graduated in Modern Language and Literature / Portuguese Studies, Master in Romanesque Literatures. E-mail : [email protected] Pires, entre muitos outros, se terem dedicado à literatura desta época, editando textos e publicando trabalhos críticos; a verdade é que todo este esforço continua a ser infrutífero, sobretudo se pensarmos que muitos são os autores e obras que estão dispersos por manuscritos desconhecidos. Com esta edição, decorridos 373 anos após a morte do autor (29/01/1634), cremos estar a contribuir para esbater uma lacuna dos estudos literários nacionais que continua (e continuará) a subsistir.
Vida e Obra de Tomé Tavares Embora não possamos precisar a data exacta do nascimento de Tomé Tavares, é bastante provável que ele tenha acontecido em 1570. A conclusão é sugerida pelo seu processo de aluno universitário: sabendo que à época, era prática corrente os alunos ingressarem com 16 anos, é de supor que também o nosso autor tivesse essa idade em 1586, data do seu único registo de matrícula -em «Instituta», com certidão de exame de latim a 14 de Novembro , dotado de um espírito arguto e engenhoso.
. Sabe-se também que nasceu na cidade do Porto e que era filho de Nuno Tavares, «cidadão muito honrado do Porto» 5
Outro aspecto da vida de Tomé Tavares sobre o qual dispomos de alguns elementos é a sua ordenação. De facto, embora não possamos precisar a data exacta em que ocorreu, apurámos que já em 1600 paroquiava a freguesia de Santa Marinha de Rio Tinto, , e de Joana Carneiro, descendente dos Carneiros do Porto, importante família do século XVI.
no termo de Barcelos 6 . Sabemos ainda que morreu a 29 de Janeiro de 1634, na sua abadia 7 .
Salientados os principais aspectos referentes à biografia de Tomé Tavares, não poderíamos ficar alheios ao retrato que o nosso poeta faz do último 6 Encontra-se no Arquivo Distrital de Braga o primeiro registo paroquial de que temos conhecimento assinado pelo Abade Tomé Tavares. Trata-se de um baptizado de 13 de Março de 1600 (Cf. Registo Paroquial de Esposende, livro 354º, f. 13r). 7 No mesmo arquivo, mais precisamente no 'Registo Paroquial de Esposende', livro 350º, f. 53v, pode ler-se: 'Aos trinta e hum digo aos vinte e nove dias do mes de Janeiro de mil e seis centos e trinta e quatro annos faleceo o R do abb e desta Igreja Thome Tavares Carn ro foi confessado não lhe derão o Sôr por não estar p a o receber mandou se lhe fisessem três off os cada hum de des padres e desem as offertas costumadas era ut supra quartel de quinhentos e primeiros anos de seiscentosépoca em que o 'sonho da Índia' e com ele um século de trabalho metódico e persistente e a fama do nome luso, levada nas asas brancas das caravelas, se haviam já dissipado, dando lugar ao domínio castelhano. ? Gaspar Lopes' (cf. fig. 3). Do seu olhar atento aos pequenos nadas, a um mundo movediço, de contrastes, sempre em mutação, resulta uma obra que interessa -mais do que pelo virtuosismo verbal e conceptual -como testemunho da sociedade nortenha da época, uma sociedade em que a disciplina, a moralidade e os costumes deixavam muito a desejar.
Um dos principais alvos do nosso poeta é a classe eclesiástica, satirizada pelo grau de indisciplina e de relaxamento a que chegara. Proliferavam os 'casos' entre frades e freiras: III. IV.
A febre do luxo que teimava em permanecer no século XVI contaminou também a austera e recatada alta sociedade de outrora. Esquecidos da humildade que devia reger as suas vidas, os seus membros faziam gala em trajar ricamente: À mulher do Juiz de Barcelos, que sendo mui pequena trazia touca muito alta Em tão pequena barquinha metestes tão grande vela que temo se vire asinha, que do Juiz a varinha não basta para sustê-la.
(peça n.º 63) 9 Estes são apenas pequenos exemplos da atenta, subtil, engenhosa e bem-humorada observação da realidade que caracteriza a obra de Tomé Tavares . O quotidiano, a vida comum, palpitante de agitação, é o principal pano de fundo das Obras Burlescas do Famoso Tomé Tavares, colectânea que se caracteriza por uma simplicidade e uma facilidade que são apenas aparentes.
A diversidade poemática sugere de imediato a capacidade do nosso autor, que pratica o dístico (1 texto), a elegia (1 texto), o poema em décimas (2 textos), o poema em oitava rima (1 texto), o poema em quintilhas (27 textos), o poema em redondilhas (1 texto), o poema em tercetos (5 textos), a quadra (20 textos), o romance (6 textos), o soneto (11 textos) e ainda o texto em prosa (2 textos), num registo predominantemente satírico. Alguma diversidade pode ser também surpreendida no campo da métrica, em que ao lado do decassílabo -com variados esquemas acentuais -nos aparece a tradicional redondilha maior. O mesmo acontece ainda no que respeita às formas estróficas (terceto, quadra, quintilha, oitava) e aos modelos rímicos.
É grande ainda a diversidade de temas 11 , apresentados sob uma orientação estético-literária que não é fácil identificar de imediato. À partida, e levando em conta que Tomé Tavares viveu entre 1570 (data provável do seu nascimento) e 1634, diríamos que estamos perante um poeta de transição,doManeirismo (1550-1620) para o Barroco (1620-1750) 12 (peça n.º 41)
. No entanto, a leitura da sua obra, revelando embora motivos dessas duas estéticas, evidencia sobretudo um lastro da literatura satírica do final da Idade Média.
Veja-se o texto que dedica «À sepultura de ?a Dama célebre do seu tempo», em que explora o sentido duplo de "vaso": Aqui jaz Dona Genebra, de que o Mundo fez grão caso; quebrou porque era bom vaso, que vaso mau n?ca quebra.
13 Esta orientação satírica -cujo alvo tanto pode ser individual como colectivo -assume por vezes 11 Uma vez que o princípio de organização dos textos no seio das Obras Burlescas de Tomé Tavares nem sempre é claro e o seu compilador, Cristóvão Alão de Morais, optou por reunir as composições poéticas do nosso autor sem ter em conta um critério visível (cronológico, formal, temático, alfabético); optámos, no sentido de proporcionar ao leitor uma melhor percepção da obra, por agrupar as composições em cinco capítulos distintos, constituídos de acordo com um critério temático: no primeiro, serão contemplados os poemas relativos ao Mestre-escola Francisco Roiz de Carvalho; no segundo, virão os poemas referentes a Pero Lopes Camelo; os poemas relativos a figuras secundárias serão parte integrante do terceiro; o quarto reúne os poemas de temática clerical; as restantes composições poéticas constarão do quinto capítulo, intitulado Outros.
12 Os textos do Abade de Barcelos só apresentam dois dados cronológicos, ambos remetendo para o primeiro período: no poema 'Considerando fomos nas malhadas' (peça n.º 71), o autor declara ter 27 anos (se aceitarmos 1570 como data provável do seu nascimento, esse texto seria de 1597, em pleno período maneirista); na peça n.º 42, 'Ninguém a ser Poeta só se aprova', aparece a data de 1610. contornos de erotismo que podem resvalar para uma obscenidade mais arcaica do que moderna, fazendo lembrar com frequência textos do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. A marca maneirista e barroca estará assim mais na escrita engenhosa que nos motivos temáticos ou na orientação ideológica da obra.
Deste jogo resulta, porém, um duplo risco para o nosso poeta: o de ser encarado, ao seu tempo, como 'impopular', transgressor de regras e o de ser esquecido pelas gerações vindouras, para quem os acontecimentos quotidianos daquela época perderam interesse ou ganharam o estatuto de mera curiosidade de eruditos.
Tomé Tavares ficou assim votado a um imerecido esquecimento, de que tentaremos agora 'resgatá-lo', «dando-o como testemunho de uma sociedade em que a sátira escabrosa foi o inevitável contrapeso de uma espiritualidade forjada por dogmas que desviaram o homem do trilho diurno da sua natureza superada» 14 V.
. À visão melancólica do maneirismo o nosso autor prefere de facto a visão realista e viva do mundo que o rodeia, veiculada num estilo livre, «se a Musa se não sentir peada com os consoantes».
Aquilo que o tempo havia apagado tentaremos agora reavivar mediante «? passeio pelo campo da memória» que resgate os «retalhos da mesma cor que o tempo ia já cobrindo de ortigas»: Do Impressor a certo Presbítero Quem conhece o sujeito desta obra não acaba de encarecer a pouca deligência do Autor dela a respeito da grande empresa em que se meteu; e como a queixa disto seja tão geral, não foi possível deixar de ir à sua notícia. Querendo ele agora em alg?a parte remediar esta falha, determinou outra vez dar ? passeio pelo campo da memória, aonde achou alg?s retalhos da mesma cor que o tempo ia já cobrindo de ortigas, que ainda que tem por ofício descobrir tudo, também o torna a encobrir ajudado do esquecimento? (peça n.º 25) 15 O Autor me afirmou que seu passado descuido o deixou tão temeroso de presente que de nenh?a maneira se atreveria a sair com a seg?da impressão se eu lhe não alcovitasse ? Protector com que pudesse perder o receio de a murmuração andando no cio lhe não poder atirar quatro couces; não achei lugar onde pudesse ficar mais seguro deles que debaixo da Ontem como hoje, a tarefa não é contudo fácil, pois «a murmuração andando no cio» pode dificultar a aceitação de um poeta incómodo: sobrepeliz de V. M., a quem por ora não posso descobrir o nome, por me sentir mui empenhado com o apelido de Meneses que devo em outra parte. Frutuoso Lourenço (peça n.º 25) 16 No sentido de proporcionar ao leitor uma melhor percepção da obra e do espírito engenhoso de Tomé Tavares, agrupámos as suas composições poéticas em cinco capítulos distintos: no primeiro capítulo, estão contemplados os poemas relativos ao Mestre-escola Francisco Roiz de Carvalho; no segundo capítulo os poemas referentes a Pero Lopes Camelo; os poemas relativos a figuras secundárias são parte integrante do terceiro capítulo; o capítulo quarto é inteiramente dedicado à temática clerical; as restantes composições poéticas que, pelo seu conteúdo, não dizem respeito a nenhuma figura identificável em concreto nem são de teor religioso, e como tal não se inserem em nenhum dos capítulos referenciados Este «passeio pelo campo da memória», embora assuma por vezes um pendor moralista, é dominado por um riso irreverente e quase condescendente para com os pecadores e os seus pecados.
A sátira burlesca é o remédio proposto para um quotidiano manchado pela hipocrisia, pela devassidão e pelas frivolidades mundanas.
Filho de uma época de profundas metamorfoses, o Abade de Barcelos insere-se nas coordenadas de um espírito barroco, marcado pelo desnudamento das palavras e pela 'guilhotina' da sátira viperina e desmedida. O que fica da leitura da sua obra é a surpresa perante a capacidade de contemplar o mundo sem pudor, numa mistura de palavras límpidas e mordazes, pautada pela musicalidade e por um refinado engenho verbal. Moldando palavra a palavra, Tavares é, então, a encarnação de uma sensibilidade riquíssima sem perder ou desfigurar os traços característicos do Barroco.
Reabilitá-lo é, pois, estabelecer uma ponte entre os requintes do engenho agudo, a acrobacia das subtilezas e a multiplicidade de impressões internas e externas de um mundo todo ele composto de reentrâncias; é tornar acessível ao leitor actual, uma obra que é testemunho de uma época e de um meio em que o autor viveu. Desta forma, procurámos realizar uma actualização prudente e cautelosa do texto, de modo a oferecer ao leitor médio dos nossos dias, um texto crítico fidedigno, antes de mais do ponto de vista linguístico. Tivemos a preocupação de salvaguardar os aspectos fonéticos, morfológicos e sintácticos dos textos e de não descaracterizar o estilo do autor das Obras Burlescas. A edição das composições comporta um número de ordem, ininterrupto; uma legenda, seguida do poema, cujos versos surgem numerados de cinco em cinco, com os algarismos colocados à esquerda. Quando um poema é transmitido por mais que um testemunho, é-lhe atribuída a letra A para designar o testemunho que elegermos como base; as alterações foram convenientemente assinaladas quer no corpo do texto, quer em pé de página, sendo a chamada feita a partir do número de verso. O mesmo se verificou com outras anotações necessárias ao esclarecimento do texto.
Nas correcções realizadas, foram utilizadas chavetas para as supressões e colchetes para as adições. São notadas entre barras oblíquas, antecedidas de asterisco todas as passagens cuja lição seja dúbia. O aparato, separado do texto crítico por uma linha e apresentado em corpo menor, vem ao fundo da página e pode incluir três partes fundamentais:
A. Variantes: B. Justificação de emendas: C. Notas:
1. Referência aos sublinhados efectuados pelo copista; 2. Registo das notas localizadas à margem; 3. Vocabulário e notas necessárias para a compreensão do texto. Poderá haver também observações que digam respeito a aspectos gramaticais, métricos e acentuais dos versos; 4. Tradução de passagens em latim; 5. Anotações sobre a poética do texto.
Na elaboração deste aparato tivemos como principal objectivo tornar as composições acessíveis ao leitor actual, procurando dissipar as barreiras que eventualmente pudessem ocorrer. Assim, o leitor será confrontado com uma pluralidade de opções e de leituras, não lhe sendo, porém, vedada a possibilidade de realizar as suas próprias escolhas e de efectuar uma leitura pessoal dos textos.
Vejamos os dois poemas que se seguem e que são ilustrativos do modelo e critérios de edição crítica que adoptámos 17 O poema é formado por versos de redondilha maior agrupados em quadras, que recorrem ao esquema rimático ABBA.
Deste retrato vivo das encostas do Douro, das vivências do Porto e de Barcelos, dos meandros de uma época conturbada, fica o prazer de uma obra que é documento, acima de tudo, da «eterna verdade» da poesia 18 .

![?a freira de Santa Clara que se lhe mudou a voz com a idade e falava com ? frade do Desembargador Antão Mendes Cantastes bem alg?a hora, porém já graça não tendes, que sois nora de Antão Mendes [;] Antão cantais como Nora. (peça n.º 53) 8](https://socialscienceresearch.org/index.php/GJHSS/article/download/100477/version/100477/3-Construction-of-burlesque-Tome-Tavares_html/6716/image-3.png)
| Aqui jaz Pisco Ribeiro, | ||
| que de mil cores reluz; | ||
| e posto sobre ? tojeiro, | ||
| foi morto c'? arcabuz | ||
| 5 por mãos de Jorge Carneiro. | ||
| ________________________ | ||
| 3. O verso vem escrito à margem direita. Optámos, devido a | ||
| questões de métrica e de coerência, por integrá-lo no poema. | ||
| 3. tojeiro -tojo grande. | ||
| 5. Jorge Carneiro -Morgado de Gaia e bisavô do poeta | ||
| Tomé Tavares. | ||
| O poema é formado por versos de redondilha | ||
| maior, agrupados numa quintilha, com esquema | ||
| rimático do tipo ABABA. | ||
| 77. | ||
| Manuscrito principal: BPMP, 736, f. 42r-42v | ||
| VII. | ||
| 5 | Mas na razão não me fundo | |
| nem dela os Autores tratam, | ||
| porque às lebres que se matam | ||
| não houvera gota no Mundo. | ||
| Sempre as mataram Fidalgos, | ||
| 10 | muitas morriam aos cacheiros, | |
| muitas mais matam Rendeiros | ||
| despois que deram em ter galgos. | ||
| Pois se grandes e pequenos | ||
| matam lebres à porfia, | ||
| 15 | como são mais cada dia | |
| e os gotosos não são menos? | ||
| : | ||
| 28. | ||
| Manuscrito principal: BPMP, 736, f. 10r | ||
| VI. | Mote | |
| 3. | ||
| 17 Ibid, pp. 211 e 309. | ||